Pastelzinho Drink

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Boris e Eraldo - Simples

É claro que a dupla de cabelo colorido "fanta uva e laranja" chamavam atenção. Mesmo num ambiente universitário. Os únicos que pareciam não se impressionar eram os inspetores, faxineiros, enfim, todos que participavam do corpo administrativo. Agiam como se aquelas figuras fossem visitantes que constantemente apareciam. Até trocavam intimidades com piscar de olhos, comprimentos com o polegar e alguns "opa! Tudo bem?"

Já os alunos, declaravam sua insatisfação com caras estranhas e olhares de "que porra é essa?", principalmente quando tinham o infortúnio de se deparar com as camisas das figuras estranhas. Uma era laranja, combinando com o penteado estranho do dono, com a frase "Foda-se a internet. Eu leio a Barsa" e a outra, mais fácil de definir como um pano de chão com cortes para passar cabeça e braços, tinha "caralhinhos voadores" desenhados a mão. Óbvio que os estudantes não estavam achando aquilo legal nem "puta! que idéia foda!" O que incomodava era: "Porra, quem deu direito a esses caras usarem frases com palavrão ou desenhos pornográficos? Pior, porque a gente não pode?"

A visita estava chegando ao fim, a dupla já estava no último corredor da faculdade em direção ao portão principal. Mas é claro que algo tinha que acontecer. Dessa vez foi uma coisa bem simples que disparou a indignação do cabeça de fogo. A última porta do corredor tinha um placa avisando "Sociologia Turma 111". Sociologia. Dá pra acreditar que esse foi o problema dessa vez? Socio - logia. Que azar.

Bem, o senhor "cabelo tons de por do sol na paria de Ipanema com direito a aplausos" leu aquela palavrinha e, visivelmente insultado, adentrou na sala. Ignorando a cara de espanto do professor e seus alunos, decorreu o seguinte discurso:
- Sério! Vocês tem que entender que é tudo mais simples do que vocês imaginam. Vou tentar explicar de uma maneira bem sintética, do jeito que, na verdade, a questão é. Todos querem ter tudo. Mas é impossível todos terem tudo. Para se ter tudo, alguns tem que ter muito pouco. Por isso existem três tipos de pessoas. O primeiro tipo chamarei de Realizados. Eles estão no poder, logo tem tudo, ou a sensação. E para se manter no topo da pirâmide criam, e recriam quando necessário, a moral - do latim normal. A moral faz com que os outros dois grupos sejam recompensados quando fazem o que é considerado normal e punidos quando fogem da normalidade. Para patrocinar e punir o segundo grupo, os Ascendentes Resignados, que também querem ter tudo um dia, se fazem necessários. Por último, e menos importante, estão os Seguidores, que, deixe-me ser criativo, hummm, obedecem já que eles não tem nada. Então, o objeto de estudo da Sociologia deveria ser somente, e tão somente, a relação entre esses três grupos. Assim, vocês chegariam mais rápido a conclusão que por mais que exista um grupo que cria, outro que promove a criação e um último que acha legal, flutuar entre os grupos é uma questão de escolha, vindo do exercício do comportamento privado e o teatro público. Sei, ficou meio conceitual esse final, mas não tem problema, já falei sobre os três grupos, o resto vocês podem fazer sozinho.
Normalmente, nesse tipo de situação, surgiria um silêncio que teria sua maturidade atingida em 30 segundos. Só que não foi o que aconteceu. Um aluno se levantou e começou a falar como se fosse possível ricochetear uma bola de canhão com uma pena de galinha:
-Você disse que a questão é sintética, mas apresenta como função majoritária da Sociologia três grupos e além disso formaliza um produto final de extrema abstração. Não concordo com sua visão, prefiro continuar como o objeto de estudo a sociedade. Simples assim.
- Simples assim, é? Tá bom. - pausa para fingir que aceitou - Sapo!
Ninguém pode perceber, mas o único aluno que foi capaz de reagir prontamente ao desafio de questionar a definição de sociologia "bem sintética, do jeito que, na verdade, a questão é" teve seu cérebro trocado com um Telmatobius culeus, um sapo, que existe apenas em um lugar remoto na terra. É claro que tamanha transmigração de massa cefálica teve um impacto drástico no poder de cognição do rapaz, que ainda conseguiu, brilhantemente, sentar-se e abrir levemente a boca, estado em que se encontrava a grande maioria das bocas que habitava a sala. O que deixaria orgulhoso, famoso e rico o descobridor da rara espécie de anfíbio. Pois teria conseguido, com esta evidência, por fim, provar a capacidade desse animal em imitar movimentos humanos.
Na saída da faculdade o diálogo entre o estranho par foi inevitável:
- Eu pensava que você iria falar sobre aquele negócio de "areia e cimento. Tudo se resume a areia e cimento. O que é natural e o que o homem pode fazer da natureza."
- Isso é a questão final da Filosofia.
- Ah tá. Bem, podemos ir lá no Titicaca ver como ficou?
- Ficou o que?
- O sapo. Quero ver como fica um sapo com mais de 2 quilos de neurônios na caixola.
- Não. Vai você. Fico com dor de cabeça em lugares de grandes altitudes.

sábado, 15 de novembro de 2008

Boris e Eraldo - Reinventando

A mulher que falava na televisão tinha um título, segundo a faixa que ficava no canto inferior da tela, de PhD em Genética. Ela concluía sua tese:

" Então, não podemos afirmar que o projeto Genoma é um completo desperdício de tempo. Mas também está longe de agregar entendimento da biologia em nosso ecossistema. Pelo menos nos livramos da Ilusão que o Gene poderia explicar as leis que regem a vida. O maior problema agora não é ter que começar do zero. E sim descobrir como desmontar a invenção da Teoria da Evolução Moderna Darwinista que está impregnada no consciente coletivo."

-Caralho! Puta quil paril! - O Rapaz de cabelo azul e camisa desbotada com a frase "Você, pra mim, é problema seu" se levantou do sofá, colocou a mão na cabeça e olhou para seu companheiro que continuava sentado sem esboçar nenhuma reação.-Vou ter que inventar outra coisa agora. Porra, esse negócio do DNA funcionou por tanto tempo. - Lamentou o rapaz e sentou-se novamente.

Seu amigo, que só era diferente pela cor do cabelo, um laranja vibrante, e pela camisa que, ao invés de uma frase, tinha um smile estampado, falou calmamente: - Por que você não tenta prende-los novamente no paradigma religioso?

- Eu tentei. Tentei mesmo. Mas só tive sucesso nos países de terceiro mundo e no interior dos Estados Unidos. Preciso de algo que cole mundialmente, que engane estes merdas por mais uns mil anos.

- O que você está pensando? - perguntou o de cabelo laranja que degustava agora um cafezinho e uma rosquinha de polvilho.

- Não sei direito. Acho que vou lhes dar um pouco da verdade. O que você acha disso - estendendo os braços e formando uma tela com as mão, da mesma maneira que um jornalista pensa uma manchete, continuou - "Começará com uma simples descoberta. Dois garotos que conseguiram participar do programa de pesquisa espacial brasileiro enviando brotos de feijão para o espaço, vão perceber acidentalmente partículas estranhas em suas plantinhas usando um procedimento banal com Iodo, coisa de quinta série. Essas partículas, serão estudadas e em pouco tempo perceberam que elas se apresentam em toda forma de seres vivos. O mais interessante é que ao conseguirem separar essas moléculas, que eles irão chamar de "conglomerado de Freitas-Paulino" graças aos meninos, irão perceber que são capazes de produzir o mesmo fenômeno que a sinapse cerebral, concluindo assim que todo ser vivo, por mais simples que seja, tem a capacidade intelectual. O último estágio será quando um grupo de cientistas especializados em semi-condutores esbarrar com o conglomerado em metais como silício, assim criando a teoria final da "Poeira cósmica inteligente" que unirá as físicas mecânicas e quânticas sobre o véu de tudo estar a trabalho de uma inteligência superior universal que busca em toda a criação o sentido da sua própria existência."

O "Pooorraaaaa!" que saiu da boca do seu companheiro veio misturados com perdigotos de café e rosquinha - Dar um pouco da verdade? Caralho, você está contando tudo. Idiota! Vai falar pra eles escutarem o disco da Arca de Noé ao contrário também? "Rua dos Bobos número zero"! Hein seu idiota? Vai falar também onde nos estamos agora? Panaca!

- Panaca não sua entidadezinha de meia-tigela.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Competência

Pronto chefe! Tá aqui a equipe que montei. Vou apresentar do jeito que me pediu:

Esse é o Tony Pé de Chumbo, ele vai ser nosso motorista. Ele faz Barra/Niterói em 6,2 minutos, usa a teoria do 100 Sinal, sabe ? Aquela que diz que a probabilidade de bater atravessando o sinal vermelho a 100Km/h é menor que parar na faixa. Louco ?

Esse outro aqui e o Betinho Pé de Cabra, vai ser nosso segurança e cuidar dos possíveis embates físicos já que não vamos poder usar armas de fogo. Foi treinado em Israel, sabe contornar uma situação de até 20 pessoas querendo nos meter porrada. Como é mesmo o nome dessa técnica?

“A técnica do Judas Voador.”

Isso mesmo! Bem, Ta aqui também O João de Cesamo. Porque te chamam assim mesmo?

“Abra de Cesamo

Ah é! Bom, ele arromba qualquer coisa. Faz aquela parada de trancar a gaveta com a chave dentro pro chefe ver?

Fluft. “Feito.”

Sinistro ? E por último e não menos importante, trouxe também o Henrique Castro Albuquerque, dono de mais de R$ 18 milhões em barras de ouro, que é quem a gente vai roubar.

fudido.”

domingo, 5 de outubro de 2008

Voadora - Parte1

Antes do par de All Star mal intencionado atingir o peito de Pedro e reivindicar todo o ar dos seus pulmões, gostaria de deixar claro três pontos:

1º – Pedro é um nome bíblico. Significa pedra, rocha. Mas existem quase 500 nomes citados no livro sagrado cristão. Só com a letra P existem 10.São eles:
Pármenes – aquele que fica.
Pátrobas – que deve a vida ao pai.
Paulo – de baixa estatura.
Pedro – pedra, rocha.
Pérside – a persa.
Pilatos – armado de lança.
Priscaanciã, a venerável.
Públio – público, popular.
Pudentepudente, pudoroso, casto.
Putifar – dado pelo sol.
Portanto, ao ler o nome do nosso personagem principal, não pense “olha! um nome bíblico.” Provavelmente todos os nomes que você conhece são bíblicos, incluindo o seu. Esse tipo de comentário irrita bastante Pedro.

2º – Pedro nunca teve nada contra ninguém, e talvez por isso alguns odiavam-no;

3º – Pedro carrega no bolso, desde os seis anos de idade, uma carta escrita pelo seu avô antes de morrer. Pedro nunca revelou a ninguém a mensagem dessa carta, apenas diz que é uma mensagem de “compaixão em tempos de crise.”

Escalrecido isso, posso descrever-lhe que Pedro rolou para trás entre piruetas e cambalhotas devido ao golpe certeiro de Augusto. Interessante notar que a confusão que começava a se formar fora conseqüência da discussão acalorada entre Pedro e Marcinho, amigo íntimo de Augusto.

Pedro deveria saber que “amigo de verdade não separa briga. Chega dando voadora.”

Continua.

domingo, 15 de junho de 2008

Memória Póstuma

...e no braço direito de deus tinha uma tatuagem: "Minha consciência fica o dia inteiro sentada tomando cafezinho."

domingo, 8 de junho de 2008

Mentiras Brancas

A vontade de brincar de ser outra pessoa parece tomar conta e antes que perceba o que está fazendo, seu sotaque muda. “Estou de férias no Rio, na casa de meus tios”. O motorista da van balança a cabeça para cima e para baixo, em sinal afirmativo, com um sorriso simpático no rosto. Também teve a vez em que ela disse, no táxi, que estava a caminho da casa de sua comadre, para visitar sua afilhada que “coitadinha, há uma semana não dorme direito com febre”.

Sempre, depois desses episódios, divertia-se imensamente relembrando os momentos mais disparatados da conversa, afinal, ela fazia questão de improvisar personas com valores e opiniões distintos dos seus. E quanto mais diferentes dela fossem os personagens interpretados, melhor.

Se esbaldava com a facilidade com que concordava com as opiniões absurdas de taxistas. Concordava, e veementemente, com os reacionários que arriscavam dizer que alguém deveria explodir as favelas do Rio, que a pena de morte é a única solução, que o Brasil só melhora com uma nova era ditatorial. Gargalhava por dentro enquanto dizia as coisas mais incríveis, que nunca pensara poder dizer, já que eram o total oposto do que realmente pensava. Dizia que bandido bom é bandido morto, embora quando ouvisse isso da boca de algum conhecido, repudiasse tais palavras.

Não entendia de onde vinham essas vontades, que pareciam mesmo lhe dominar em certas situações. Cedia a esses caprichos peculiares, mas não ousava comentar os episódios com ninguém, nem tanto por medo do ridículo mas por simplesmente achar que realizá-los lhe bastava.

Sentia-se um pouco atriz, e das boas. Já havia até mesmo chorado uma vez, contando a morte trágica de um amigo fictício que, imprudente, reagiu a um assalto.

Tinha amigos de teatro, que uma vez chamaram-na para atuar em uma peça infantil. “Você seria a bruxa má”, disse o amigo. Espantou-se e sentiu-se secretamente orgulhosa. Pensou durante dois dias e recusou o convite. Disse que não se sentia apta a desempenhar um papel, seja qual fosse, sem um mínimo de preparo.

Mentira. E deslavada. O difícil para ela seria fazer de conta na frente de todo mundo, enquanto sozinha, ela sentia que realmente se tornava a personagem que interpretava. Ela era a madrinha preocupada, a amiga saudosa, a carioca reacionária.

Pensava que era bobagem. Aquilo tudo. Fingir ser outras pessoas e depois nem mesmo comentar com amigos. Mas também, como explicaria as vontades? Não saberia como. Melhor assim. Gostava de ter essa brincadeira consigo mesma, um jogo que era só dela. A diversão era garantida, sem pressões, e depois podia guardá-la, inteirinha, o resto da vida, só para si.

domingo, 20 de abril de 2008

Mordida Cruzada

Meus dentes estão gastos. O ortodentista disse-me que pelas medidas de minha mandíbula, era para eu ser prognata, e não apenas ter a mordida cruzada, como tenho. Aparentemente o prognatismo não ocorreu de fato porque meus músculos faciais são muito fortes e, assim, forçaram as arcadas para que ficassem ao menos metade de cada corretamente alinhadas, e por causa dessa força feita diária e inconscientemente por 25 anos, eu ranjo os dentes, ou melhor, travo a mandíbula desconfortavelmente enquanto durmo.

Para consertar a mordida cruzada e acabar com as dores de cabeça (acordar depois de passar a noite forçando a mandíbula é acordar no inferno) eu teria que usar aparelho fixo por muito tempo (a estimativa foi de 5 ou 6 anos), e, mesmo sob a condição de parecer ter 15 anos de idade já com mais de ¼ de século - por mais tempo do que até um adolescente aceitaria - os resultados não são garantidos.

A opção alternativa, que de alternativa no sentido de ser mais branda não tem nada, é operar, e cirurgias me assustam profundamente. Cirurgias envolvendo a arte medievalmente primitiva que é a ortodontia parecem-me ainda mais medonhas.

Ir ao dentista é algo que sempre me deu medo. E a sala de espera, para mim, sempre foi como uma sala VIP para os que vão à forca. O barulho do “motorzinho” que pode ser ouvido do consultório parece dizer “estou me esbaldando com este pobre diabo, e farei o mesmo com você”.

Enquanto isso você folheia revistas de anos atrás fingindo não ouvir os grunhidos do paciente da vez, tentando racionalizar que ir ao dentista é saudável, temos que cuidar dos dentes, e esse cheiro... Esse cheiro significa que este é um consultório limpo, isso sim. Cheiro de limpeza. Dr. Fulano sempre esteriliza todo o material, ele tem um forninho para isso, você notou logo na primeira consulta. Dr. Fulano é um profissional competentíssimo. Mas, enquanto repete afirmações desse tipo mentalmente, como um mantra, imagens recorrentes de torturas vêm à mente, uma sala de tortura limpíssima, com objetos metálicos e pontiagudos, alguns você não consegue nem imaginar para que servem, e é melhor não imaginar, mesmo. Pensamentos felizes, pensamentos felizes, uma boca saudável, hálito fresco, sabor de hortelã, campos de hortelã, de flores, cachoeiras, que visões maravilhosas, mas o cheiro não deixa você se entregar à ilusão do paraíso por completo. O cheiro e sua vizinha na sala de espera, que parece perceber que embora você vire uma página a cada 5 minutos, você não está realmente lendo a revista. Então ela te traz de volta de vez, tocando seu ombro, perguntando idiotamente se você já terminou de ler a revista. Ao fechar o periódico antes de entregá-lo à devoradora de fofocas velhas você vê que a capa estampa em letras garrafais que Michael Jackson e Lisa Marie Presley separaram-se e há rumores de que seu casamento falido nem mesmo tenha sido consumado.