Meus dentes estão gastos. O ortodentista disse-me que pelas medidas de minha mandíbula, era para eu ser prognata, e não apenas ter a mordida cruzada, como tenho. Aparentemente o prognatismo não ocorreu de fato porque meus músculos faciais são muito fortes e, assim, forçaram as arcadas para que ficassem ao menos metade de cada corretamente alinhadas, e por causa dessa força feita diária e inconscientemente por 25 anos, eu ranjo os dentes, ou melhor, travo a mandíbula desconfortavelmente enquanto durmo.
Para consertar a mordida cruzada e acabar com as dores de cabeça (acordar depois de passar a noite forçando a mandíbula é acordar no inferno) eu teria que usar aparelho fixo por muito tempo (a estimativa foi de 5 ou 6 anos), e, mesmo sob a condição de parecer ter 15 anos de idade já com mais de ¼ de século - por mais tempo do que até um adolescente aceitaria - os resultados não são garantidos.
A opção alternativa, que de alternativa no sentido de ser mais branda não tem nada, é operar, e cirurgias me assustam profundamente. Cirurgias envolvendo a arte medievalmente primitiva que é a ortodontia parecem-me ainda mais medonhas.
Ir ao dentista é algo que sempre me deu medo. E a sala de espera, para mim, sempre foi como uma sala VIP para os que vão à forca. O barulho do “motorzinho” que pode ser ouvido do consultório parece dizer “estou me esbaldando com este pobre diabo, e farei o mesmo com você”.
Enquanto isso você folheia revistas de anos atrás fingindo não ouvir os grunhidos do paciente da vez, tentando racionalizar que ir ao dentista é saudável, temos que cuidar dos dentes, e esse cheiro... Esse cheiro significa que este é um consultório limpo, isso sim. Cheiro de limpeza. Dr. Fulano sempre esteriliza todo o material, ele tem um forninho para isso, você notou logo na primeira consulta. Dr. Fulano é um profissional competentíssimo. Mas, enquanto repete afirmações desse tipo mentalmente, como um mantra, imagens recorrentes de torturas vêm à mente, uma sala de tortura limpíssima, com objetos metálicos e pontiagudos, alguns você não consegue nem imaginar para que servem, e é melhor não imaginar, mesmo. Pensamentos felizes, pensamentos felizes, uma boca saudável, hálito fresco, sabor de hortelã, campos de hortelã, de flores, cachoeiras, que visões maravilhosas, mas o cheiro não deixa você se entregar à ilusão do paraíso por completo. O cheiro e sua vizinha na sala de espera, que parece perceber que embora você vire uma página a cada 5 minutos, você não está realmente lendo a revista. Então ela te traz de volta de vez, tocando seu ombro, perguntando idiotamente se você já terminou de ler a revista. Ao fechar o periódico antes de entregá-lo à devoradora de fofocas velhas você vê que a capa estampa em letras garrafais que Michael Jackson e Lisa Marie Presley separaram-se e há rumores de que seu casamento falido nem mesmo tenha sido consumado.
domingo, 20 de abril de 2008
sábado, 23 de fevereiro de 2008
Dos Tipos de Pessoas - Os Que Escolheram Sofrer
As pessoas que escolheram sofrer normalmente também escolhem partilhar seu sofrimento com as outras. Em uma análise inicial, a parte receptora pode até pensar que Os Que Escolheram Sofrer estão contando seus problemas para que, talvez, em uma discussão racional, chegue-se a algum tipo de resolução. Aí está um erro muito comum. Os Que Escolheram Sofrer, embora também sofram, não devem ser confundidos com Os Que Sofrem Por Não Ter Escolha. Esse último tipo irá, muito comumente, adotar uma decisão, seja ela qual for, que solucione ou ao menos tenha a intenção de solucionar um problema. Os Que Escolheram Sofrer não visam realmente acabar com um problema que lhes causa sofrimento, mas apenas comentar sobre o mesmo, como se estivessem em um concurso (Os Que Escolheram Sofrer muitas vezes participam calorosamente de conversas-concurso, típicas de reuniões d’Os Que Se Acham Mártir).
Não é muito fácil identificar um membro desse grupo, o que contribui para o azar do receptor, que muitas vezes os toma como pessoas normais tentando chegar a uma conclusão. Tanto pessoas normais como Os Que Escolheram Sofrer têm problemas, e ambos os tipos podem comentar sobre esses problemas e o sofrimento que os mesmos acarretam. A diferença está nos momentos em que o(s) receptor(es) oferece(m) uma solução para o dilema do sofredor. As pessoas normais ponderarão sobre tal solução, analisando se a mesma se encaixa bem o suficiente na situação, e então, se o resultado dessa análise for positivo, aplicarão a solução sugerida. Os Que Escolheram Sofrer, por outro lado, repudiarão toda e qualquer sugestão dada para solucionar um problema citando outros fatores que supostamente compliquem/agravem a situação, conforme vemos no exemplo de diálogo abaixo:
Pessoa Que Escolheu Sofrer: -“Não posso viajar por causa do François..."
Pessoa Normal: -"Deixa ele no hotel canil da veterinária, eles também recebem gatos."
Pessoa Que Escolheu Sofrer: -“Não tenho dinheiro..."
Pessoa Normal: -"Então pede para aquela sua vizinha botar água e comida pra ele."
Pessoa Que Escolheu Sofrer: -“Não sei, ela é muito velha, pode se esquecer..."
Pessoa Normal: -"Ok. Quer que eu vá e coloque comida pra ele?"
Pessoa Que Escolheu Sofrer: -“Mas eu também não sei se ele ficaria bem, ele estava meio tristinho esses dias..."
Não é muito fácil identificar um membro desse grupo, o que contribui para o azar do receptor, que muitas vezes os toma como pessoas normais tentando chegar a uma conclusão. Tanto pessoas normais como Os Que Escolheram Sofrer têm problemas, e ambos os tipos podem comentar sobre esses problemas e o sofrimento que os mesmos acarretam. A diferença está nos momentos em que o(s) receptor(es) oferece(m) uma solução para o dilema do sofredor. As pessoas normais ponderarão sobre tal solução, analisando se a mesma se encaixa bem o suficiente na situação, e então, se o resultado dessa análise for positivo, aplicarão a solução sugerida. Os Que Escolheram Sofrer, por outro lado, repudiarão toda e qualquer sugestão dada para solucionar um problema citando outros fatores que supostamente compliquem/agravem a situação, conforme vemos no exemplo de diálogo abaixo:
Pessoa Que Escolheu Sofrer: -“Não posso viajar por causa do François..."
Pessoa Normal: -"Deixa ele no hotel canil da veterinária, eles também recebem gatos."
Pessoa Que Escolheu Sofrer: -“Não tenho dinheiro..."
Pessoa Normal: -"Então pede para aquela sua vizinha botar água e comida pra ele."
Pessoa Que Escolheu Sofrer: -“Não sei, ela é muito velha, pode se esquecer..."
Pessoa Normal: -"Ok. Quer que eu vá e coloque comida pra ele?"
Pessoa Que Escolheu Sofrer: -“Mas eu também não sei se ele ficaria bem, ele estava meio tristinho esses dias..."
sábado, 16 de fevereiro de 2008
Dos Tipos de Pessoas - Os Que Falam Demais
As pessoas que falam demais quase nunca percebem que fazem parte deste grupo e chegam até mesmo a recriminar seus companheiros. Talvez essa falta de percepção se dê ao fato de que elas se ocupam muito em falar, deixando pouco tempo para perceber o ambiente. É fácil, no entanto, saber se você faz parte deste grupo. Algo que ocorre freqüentemente com seus membros é a falta de atenção dos demais presentes às histórias (geralmente longas e vagas) contadas por eles, Os Que Falam Demais. Este comportamento tende a estender-se e se tornar um padrão no(s) receptor(es) - mesmo em casos que não envolvem histórias inteiras - como simples perguntas e comentários feitos por quem costuma falar demais. Muitas vezes Os Que Falam Demais são completamente ignorados, como podemos observar no caso a seguir:
Pessoa 1: -“Cara, a gente já comentou isso... O segredo é voltar pra faculdade.”
Pessoa 2: -“Sem dúvida. Mas e grana?”
Pessoa Que Fala Demais: -“Aê, câmera digital HP: boa ou ruim?”
Pessoa 1: -“Aê, mas agora, ousando mais: imagina voltar pro COLÉGIO!”
Pessoa 2: -“Hahahahahaha... Eu sonho DIRETO com isso.”
Pessoa 1: -“Cara, a gente já comentou isso... O segredo é voltar pra faculdade.”
Pessoa 2: -“Sem dúvida. Mas e grana?”
Pessoa Que Fala Demais: -“Aê, câmera digital HP: boa ou ruim?”
Pessoa 1: -“Aê, mas agora, ousando mais: imagina voltar pro COLÉGIO!”
Pessoa 2: -“Hahahahahaha... Eu sonho DIRETO com isso.”
sábado, 2 de fevereiro de 2008
Dia dos Pais
O pai apresenta orgulhoso seu filho para o grupo de amigos “Esse aqui é meu campeão!” Um dos amigos pergunta “E aí meu garoto, qual é o seu nome?” O menino responde “Homem-aranha.” O pai tenta concertar a situação “Não filho. O nome verdadeiro!”. E o filho, é claro, responde “Peter Parker.”
domingo, 20 de janeiro de 2008
Visão 0°C
Estou sendo acusado de generalista pelo meu último post. Que bom. Pois, afinal, sim acho que todos são farinha do mesmo saco. Pode ser até que o saco seja diferente, mas a farinha é a mesma, e se tratando de Brasil, é de mandioca.
Só consegue entender o conceito de diferença o ser que questiona sua igualdade perante os ordinários. E é essa falta de questionamento que continua me incomodando. A poucos dias atrás, após descrever o batizado como “um ritual legal onde convidados ficam em função de uma criança, tirando fotos, fazendo votos e depois jogam água na cabeça do pequeno e acham lindo vê-lo chorar”, fui acusado de ter uma visão muito fria sobre as coisas.
Eu é que tenho super-poderes de ar-condicionar nossa realidade ou as pessoas que enfeitam demais nossa realidade?
O que é uma noitada? Um ritual onde machos e fêmias aptos a copular se reúnem em um lugar escuro onde encontram drogas e podem expor seus dotes atrativos.
O que é a praia? Uma faixa de areia entre a terra e o mar onde se é permitido mostrar o corpo com adereços menores que a roupa intima de cada dia.
O que é um blog eu deixo pra vocês.
Só consegue entender o conceito de diferença o ser que questiona sua igualdade perante os ordinários. E é essa falta de questionamento que continua me incomodando. A poucos dias atrás, após descrever o batizado como “um ritual legal onde convidados ficam em função de uma criança, tirando fotos, fazendo votos e depois jogam água na cabeça do pequeno e acham lindo vê-lo chorar”, fui acusado de ter uma visão muito fria sobre as coisas.
Eu é que tenho super-poderes de ar-condicionar nossa realidade ou as pessoas que enfeitam demais nossa realidade?
O que é uma noitada? Um ritual onde machos e fêmias aptos a copular se reúnem em um lugar escuro onde encontram drogas e podem expor seus dotes atrativos.
O que é a praia? Uma faixa de areia entre a terra e o mar onde se é permitido mostrar o corpo com adereços menores que a roupa intima de cada dia.
O que é um blog eu deixo pra vocês.
sábado, 12 de janeiro de 2008
Soft whoredom
Nossas mulheres ficam impressionadas com o estilo de vida que as mulheres do oriente médio são obrigadas a levar. “Como é que pode, ter que ficar usando aquela burca. Parecem um fantasma azul.” Mas tente agora imaginar o que as muçulmanas devem falar das nossas mulheres. Acho que serial algo assim: “Como é que pode, ter que alisar o cabelo todo dia, depilar as partes íntimas por mais que seja insuportavelmente dolorido, usar um sapato com um salto tão alto que faz mal a coluna e por isso tudo ter que ficar escutando gracinhas de todos os homens na rua.” Você pode até pensar que aqui “pelo menos temos escolha.” Será?
Bom, mas eu quero falar de uma situação muito pior de falta de crítica e questionamento do que se é imposto. Hoje em dia nossas garotas adoram sair na noite para curtir. Até aí tudo bem. Só que cada vez mais elas querem aproveitar mais e pagar menos. Se não precisar pagar então, que beleza! É aí que sem perceber, nós homens, colocamos nossas garotas no papel que sempre queríamos. O papel de puta.
Todo mundo sabe que não há almoço de graça. O mesmo serve para a noitada. Pode parecer pra você, garotinha, que tudo o que você está consumindo é um bônus, um presente. Mas não de graça. Alguém está pagando por isso.
Esse modelo de balada cresce cada vez mais. As garotas entram até um determinado horário de graça(?). Até uma certa hora a bebida é liberada. Ao começar a madrugada, as porteiras do curral são abertas e é liberada a entrada dos homens. Mais uma vez, quem pagou até agora a luz do estabelecimanto, o Dj, a bebida e assim a diante? Fica claro que esse prejuízo vai ser repassado para os homens.
Façamos um paralelo com a prostituição. Existe sempre alguém que está disposto a pagar por sexo - vamos chamá-lo de meliante, alguém agenciando essa demanda – o gigolô, e alguém disposto a receber por sexo – a prostituta. A única diferença entre o modelo convencional de prostituição e o modelo que as boates vêm usando é o modo disfarçado de se vender “favores sexuais.”
A pouco tempo atrás, não acharia necessário continuar a desenvolver e concluir o raciocínio. Mas como comentei anteriormente, “a realidade e um conjunto de absurdos que se escolhe não questionar.” Então vou até o fim e prometo ser estupidamente claro.
Nossos rapazes vão para noite a trás de sexo. Só não vale pagar diretamente por isso. Pois aí não contaria como “ponto” entre os amigos. Assim temos nossos lobos em pele de cordeiro, meliantes disfarçados de rapazes. A boate fica só na gerência – escolhe as mulheres, controla os horários, libera as drogas para tudo ficar mais suave. Esse papel só pode ser do gigolô. Adivinha o que sobrou para nossas amigas? O papel principal, o de PUTA.
Fico pensando como deveria agir o rapaz que tomou um veto de uma garota nesse tipo de estabelecimanto. O procedimento correto deveria ser entrar em contato com um dos seguranças que prontamente iria se dirigir a garota e avisa-lhe que “não queremos seu tipo aqui. Se não quiser trabalhar pode ir embora. Seus patrocinadores não estão satisfeitos com sua performance.”
É claro, você ponde pensar que uma comparação entre as profissionais da vida e as baladeiras é muito forçada. Afinal de contas nossas mulheres ao serem colocadas lado a lado com raparigas podem sempre dizer que “pelo menos temos escolha.” Será?
Bom, mas eu quero falar de uma situação muito pior de falta de crítica e questionamento do que se é imposto. Hoje em dia nossas garotas adoram sair na noite para curtir. Até aí tudo bem. Só que cada vez mais elas querem aproveitar mais e pagar menos. Se não precisar pagar então, que beleza! É aí que sem perceber, nós homens, colocamos nossas garotas no papel que sempre queríamos. O papel de puta.
Todo mundo sabe que não há almoço de graça. O mesmo serve para a noitada. Pode parecer pra você, garotinha, que tudo o que você está consumindo é um bônus, um presente. Mas não de graça. Alguém está pagando por isso.
Esse modelo de balada cresce cada vez mais. As garotas entram até um determinado horário de graça(?). Até uma certa hora a bebida é liberada. Ao começar a madrugada, as porteiras do curral são abertas e é liberada a entrada dos homens. Mais uma vez, quem pagou até agora a luz do estabelecimanto, o Dj, a bebida e assim a diante? Fica claro que esse prejuízo vai ser repassado para os homens.
Façamos um paralelo com a prostituição. Existe sempre alguém que está disposto a pagar por sexo - vamos chamá-lo de meliante, alguém agenciando essa demanda – o gigolô, e alguém disposto a receber por sexo – a prostituta. A única diferença entre o modelo convencional de prostituição e o modelo que as boates vêm usando é o modo disfarçado de se vender “favores sexuais.”
A pouco tempo atrás, não acharia necessário continuar a desenvolver e concluir o raciocínio. Mas como comentei anteriormente, “a realidade e um conjunto de absurdos que se escolhe não questionar.” Então vou até o fim e prometo ser estupidamente claro.
Nossos rapazes vão para noite a trás de sexo. Só não vale pagar diretamente por isso. Pois aí não contaria como “ponto” entre os amigos. Assim temos nossos lobos em pele de cordeiro, meliantes disfarçados de rapazes. A boate fica só na gerência – escolhe as mulheres, controla os horários, libera as drogas para tudo ficar mais suave. Esse papel só pode ser do gigolô. Adivinha o que sobrou para nossas amigas? O papel principal, o de PUTA.
Fico pensando como deveria agir o rapaz que tomou um veto de uma garota nesse tipo de estabelecimanto. O procedimento correto deveria ser entrar em contato com um dos seguranças que prontamente iria se dirigir a garota e avisa-lhe que “não queremos seu tipo aqui. Se não quiser trabalhar pode ir embora. Seus patrocinadores não estão satisfeitos com sua performance.”
É claro, você ponde pensar que uma comparação entre as profissionais da vida e as baladeiras é muito forçada. Afinal de contas nossas mulheres ao serem colocadas lado a lado com raparigas podem sempre dizer que “pelo menos temos escolha.” Será?
domingo, 6 de janeiro de 2008
Fogos de artifício
No outro dia comentei com um conhecido que odeio fogos de artifício que só fazem barulho. Disse que não havia nenhum propósito para sua existência. Ele me disse que há, sim, um propósito para eles, e não apenas irritar pessoas do bem. Ele me disse que são sinais de alerta. Que pessoas que não têm telefone usam morteiros e afins para comunicação.
Será que existe um código? Uma espécie de código morse absurdamente mais barulhento? E se existe, o que essas pessoas precisam comunicar dessa forma? Será que elas não podem andar até a casa da pessoa com quem querem falar e dizer o que for?
Acho que existe um motivo para tais seres humanos viverem sem telefone, isolados de tudo e todos. Os fogos são só uma desculpa para eles extrusarem sua verdadeira essência.
Será que existe um código? Uma espécie de código morse absurdamente mais barulhento? E se existe, o que essas pessoas precisam comunicar dessa forma? Será que elas não podem andar até a casa da pessoa com quem querem falar e dizer o que for?
Acho que existe um motivo para tais seres humanos viverem sem telefone, isolados de tudo e todos. Os fogos são só uma desculpa para eles extrusarem sua verdadeira essência.
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